Bronzeamento Artificial

Bronzeamento Artificial    


Dr. Clóvis Klock - Médico Patologista.

Membro do GBM - Grupo Brasileiro de Melanoma


A prática do bronzeamento artificial está muito difundida em nosso meio nos dias atuais, porém a população em geral pouco sabe sobre as conseqüências desta prática, a curto e a longo prazo.


A luz solar que atinge a superfície terrestre é composta de UVA e UVB. O UVA é o maior responsável pelo fotoenvelhecimento e bronzeamento pigmentar imediato, enquanto o UVB é o responsável pela queimadura solar, bronzeamento pigmentar tardio e pelo desenvolvimento do câncer de pele. Cerca de 95% dos raios ultravioleta que atingem a Terra são do tipo UVA e apenas 5% são UVB.


Os raios UVA possuem intensidade praticamente constante durante o dia e durante o ano inteiro. O UVA atinge a camada mais profunda da pele e a intensidade de radiaçâo UVA que chega até a camada basal da epiderme é 700 vezes maior que a radiaçâo UVB. As câmaras de bronzeamento artificial sâo constituídas por uma estrutura de acrílico transparente que permite a passagem da luz gerada por uma série de lâmpadas. Algumas câmaras possuem lâmpadas apenas na sua parte superior, o que exige que o paciente se vire, após cerca de 20 minutos, para o completo bronzeamento; outras possuem lâmpadas em toda sua circunferência, tornando a mudança de decúbito desnecessária. O uso de protetores oculares é imperativo durante as sessões, pois existe o risco de queimadura da córnea, catarata e até cegueira.


Os fabricantes das câmaras de bronzeamento relatam que suas lâmpadas apenas emitem UVA, porém como não existe uma regulamentação rígida que controle sua fabricação nem tampouco existe fiscalização sobre seu uso, pouco se pode dizer da credibilidade desta fonte de emissão luminosa e sobre os riscos do desenvolvimento do câncer de pele. Portanto as alegações dos institutos de beleza de que este é um procedimento seguro não correspondem à realidade.


Trabalhos recentes e de diversas instituições científicas mostram que é o UVA, e não o UVB, que está mais relacionado ao aparecimento do melanoma, o mais temível dos cânceres de pele, além do envelhecimento precoce. Isto significa que, em condições normais de exposição ao sol ou nas sessões de bronzeamento artificial, a radiação UVA pode ser tão mutagênica, carcinogênica e imunossupressora quanto a radiação UVB! Atualmente quase todos os laboratórios vem desenvolvendo filtros solares com proteção UVA além da UVB, sendo a nossa recomendação a utilização dos filtros com esta dupla proteção.


Os médicos precisam estar cientes que o uso do bronzeamento artificial é um fator de risco para o desenvolvimento de câncer de pele. O uso das câmaras de bronzeamento artificial devem ser sempre desencorajadas e, aqueles que tem dificuldade em se bronzear ou tem um risco aumentado de desenvolver câncer de pele (pessoas com múltiplos nevo, sardas, queimaduras solares prévias, lesões malignas cutâneas ou história de imunossupressão) nunca devem utilizá-las.


Em 2007 a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) foi consultada e ditou algumas recomendações:


O que a Anvisa pode fazer no sentido de dar mais tranqüilidade para as pessoas que utilizam o serviço de bronzeamento artificial?

Há bastante tempo nós temos dado atenção a este tema. Em 2002, publicamos a resolução 308/02 sobre procedimentos que devem ser adotados por aqueles que oferecem serviço de bronzeamento artificial. Não seguir essas normas pode trazer prejuízos à saúde da pessoa que se submete a esse tipo de procedimento.


Qual a posição da Anvisa sobre a utilização ou não desse tipo de bronzeamento?

De maneira geral, o uso de câmaras de bronzeamento é um procedimento que aumenta a exposição a radiações que são nefastas para a pele. A exposição a essas radiações não traz benefícios à saúde. São relevantes apenas do ponto de vista estético. Por isso, as pessoas devem utilizar o bronzeamento em câmaras de acordo com as recomendações feitas pela Anvisa. Um dos itens da nossa resolução de 2002, por exemplo, proíbe expressamente a repetição do bronzeamento num prazo inferior a 48 horas.


Que outros cuidados devem ser observados?

Há também a necessidade da presença de um técnico treinado para operar a câmara de bronzeamento. A manutenção preventiva dos equipamentos precisa ser seguida, incluindo um laudo feito por peritos que indique o nível da radiação gerada pelo equipamento. São itens fundamentais para reduzir o risco do bronzeamento. O usuário também deve apresentar uma avaliação médica da pele, indicando o nível de risco.


É possível que a má utilização dessas câmaras gere problemas graves para a saúde das pessoas?

A exposição contínua traz danos a longo prazo, aumenta o risco de câncer de pele, do envelhecimento da pele e mesmo de queimaduras. Também é possível o surgimento de problemas imediatos. Vasculhando um pouco os relatos sobre casos graves, nós encontramos um caso ocorrido nos Estados Unidos, no Alabama, em 1979. Uma pessoa que tomava um medicamento que aumentava a sensibilidade da pele à luz morreu por causa da combinação do uso do medicamento com a câmara. Por isso, é importante a avaliação médica. Mesmo que não ocorra um problema tão sério, ao longo do tempo os danos podem aparecer.


Por que esse tipo de prática é permitido?

Existem muitas práticas, muitos hábitos que são pouco saudáveis, e nem todos eles podem ser efetivamente proibidos. Nós podemos lembrar hábitos não saudáveis relacionados ao uso de substâncias como o cigarro e o álcool ou outras tantas situações, como, por exemplo, a má alimentação. No entanto, não se justifica a sua proibição até mesmo pelo status cultural e legal. Nós temos procurado difundir uma recomendação para que as pessoas se protejam da radiação solar e que não utilizem mecanismos artificiais que podem, inclusive, aumentar o risco de danos à pele.


Além das câmaras, há outros meios artificiais para o bronzeamento. Quais cuidados devem ser tomados em relação a eles?

Existem produtos registrados na Anvisa na categoria de cosméticos para esse tipo de procedimento. Tanto para as câmaras como para os outros produtos a recomendação é a mesma: verificar se o equipamento ou produto está registrado na Anvisa e se as orientações de uso estão sendo seguidas.


Resumindo, a melhor recomendação que se pode dar é: não faça bronzeamento artificial!


Fontes: GBM (Grupo Brasileiro de Melanoma), ANVISA, Medicina Diagnóstica Ltda.


Referências:


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